| 

Este pequeno estudo não pretende descrever toda a história
de Gonçalo, pois se assim fosse e tendo em conta os condicionalismos
próprios deste contexto, estaríamos a correr sério
risco de o tornar demasiado descritivo, factual e consequentemente simplista
e superficial. Procuramos antes abordar algumas épocas, questionando
os acontecimentos, refletindo sobre os factos, tanto quanto possível
objetivamente, de forma a entendermos as realidades e outras situações
menos reais, para que se possa, para já, iniciar o difícil
processo de "fazer História".
A História não é ciência exacta, cujo saber
esteja definitivamente concluído, e não são poucas
as vezes em que é reformulado; tal serve para vos dizer que nem
tudo o que vos apresento se encontre terminado, definitivamente verdadeiro.
Não, num percurso histórico de séculos, a maior
parte dos acontecimentos perde-se, outros são desfigurados e todos
são moldados, ora por quem os "descreveu" na época,
ora por quem os veio a reescrever mais tarde. Na história de Gonçalo
também tal se fez e fará, acrescente-se, para além
disso, muitas "zonas brancas", demasiados períodos ligeiramente
estudados, e que, por isso mesmo, vão-se adiantando hipóteses
que exigem tempo de estudo e investigação, paciência
e uma grande dose de persistência até serem confirmadas
cientificamente.
O maior património histórico de Gonçalo é sem
dúvida alguma a cestaria, actividade milenar que as suas gentes
souberam e conseguiram perpetuar ao longo de séculos e redescobri
- la nos séculos XIX e XX. Este empreendimento é, por si
só, sinal de valor, criatividade e também de esperança.
A nossa freguesia (elevada a essa categoria no século XVII),
embora não sendo particularmente rica em património histórico
monumental, nem apresente um pesado grandioso; possui tal como todas
as outras, a sua história, o seu percurso ao longo de séculos,
quiçá de milénios, per- correu indubitavelmente
períodos, uns melhores que outros, uns registados, outros nem
por isso. Assim, o que realmente nos importa aqui, não é a
história dos homens insignes. 
Certamente que não o teriam sido sem aquela massa humana de milhares
de indivíduos, de vidas simples, sem nome, nem registo, mas cuja
força e vontade provocaram transformações, produziram
acções e fizeram a história de um povo, de uma nação,
de um país. São estas acções que tentaremos
de alguma maneira reviver agora, no seu todo.
Poder-se-ia pensar que a origem do nome de Gonçalo provém
dos termos germânicos "gundi" e "salvus" (este
já latinizado). "Gundisalvus" seria o valente em combate,
o valoroso na guerra. Todavia não se encontraram, em Gonçalo,
quaisquer vestígios da presença dos povos bárbaros
que invadiram o Império Romano, ocuparam e viveram na Península
Ibérica entre 409 a 711. Suevos, Alanos e Vândalos primeiro,
a que se seguiram os Visigodos que, submetendo gradualmente os povos
invasores que os haviam antecedido dominaram toda a Península. É verdade
que a nossa zona foi ocupada primeiro pelos Alanos e depois pelos Visigodos,
e há até historiadores que mencionam registos dos primeiros
em Valhelhas. Também é verdade que na nossa região
se vão encontrando vestígios destes povos, caso da lápide
visigótica na aldeia dos Açores, a referência da "Ward" visigótica à Guarda,
achados aqui e ali de moedas, para já não falar da Egitânia
visigótica na Idanha-a-Velha. Tudo isto leva a crer que estes
povos por cá passaram, não se sabendo ao certo o grau de
intervenção e transformação que provocaram,
pelo menos na nossa zona.
De qualquer maneira, pensamos que a origem do nome Gonçalo se
deve a um homem, talvez um mestre da Ordem Militar de Alcântara
(antes conhecida por Ordem do Pereiro), um Gonçalo Perez (séc.
XIV) ou Gonçalo Martinez (14° mestre), ambos mestres desta
ordem militar à qual pertenceu a comenda (rendas eclesiásticas)
do concelho de Valhelhas até 1385 (D. João I), na qual
estava integrado Gonçalo (termo de Valhelhas) que, na época
e até D. Manuel, seria conhecido por "outeiro", conforme
referência no foral novo de Valhelhas em 1514. Este nome - outeiro
- é sem hesitação o nome dado à localização
do aglomerado populacional que existia na colina, na pequena elevação,
hoje conhecida por "castelo dos moiros". Tendo em conta que
o local foi ficando sem população que se espalhou por toda
a área Sul/Sudoeste e mais tarde, a Oriente, onde hoje se encontra
a povoação, a designação ficou sem sentido,
sendo substituída, na falta de melhor, pelo nome do senhor - Gonçalo
ou Gonzalo - nome aliás bastante comum na Idade Média Peninsular.
O "castelo dos moiros" que nada tem de árabe, sen-
do apenas uma designação atribuída pelas populações
que desconheciam o povo que aí tinha vivido, tal como castelão,
casteleio e até "casa da moira", é um castro
de finais da Idade do Bronze (segundo Adriano Vasco Rodrigues), ocupado
inicialmente por volta do primeiro milénio antes de Cristo e que
consiste num pequeno aglomerado
de construções circulares e ovaladas, em pedra, com bancos
em toda a volta das paredes interiores e com uma lareira central. A cobertura
seria de colmo (fibras vegetais). Estas construções estavam
rodeadas de muralhas e dependendo da importância do castro, por
uma ou mais cinturas. De facto, ainda existem alguns vestígios
destes muros no "castelo dos moiros", tal como fragmentos de
cerâmica utilizada no dia a dia dessas populações.
Talvez pudesse - mos obter mais informações se o castro
fosse submetido a uma escavação arqueológica, embora
os seus terrenos tenham sido lavrados e cultivados e por isso, destruídos
os vestígios originais. Desconhecendo-se inclusive se as populações
residentes na órea alguma vez encontraram e recolheram vestígios.
As populações do castro teriam mais tarde sofrido invasões
de natureza indo-europeia e posteriormente céltica, não
se sabendo ao certo quer a quantidade de indivíduos que se juntaram,
quer consequentemente o grau de transformações provocadas
com esta nova cultura, à excepção do aparecimento
de novos ritos funerários e de um novo metal, o ferro. Deste caldeamento
resultaram os povos hoje conhecidos globalmente como Celtiberos, que
foram desenvolvendo formas de vida próprias, sem contudo se distinguirem
completamente entre si, dando origem aos Lusitanos, Célticos,
Galaicos, Vetões...
É rara a povoação do distrito da Guarda cuias origens
não esteia relacionada com a cultura castreja. O nosso castro
do "castelo dos moiros" teria sido ocupado por centenas de
anos até, provavelmente, à conquista romana. E a sua população
teria integrado a "grande nação lusitana", os "Lusitani".
Designação genérica que parece abarcar um conjunto
diversificado de comunidades e povos, aparentemente independentes uns
dos outros, mas com a mesma base étnica, que ocuparam o centro
de Portugal entre o Douro e o Tejo, a entrar pelo território espanhol;
dos quais felizmente os romanos nos deixaram algumas informações,
mas que, mesmo após as investigações actuais, elas
são ainda insuficientes.
A sua economia baseava-se predominantemente na criação
de animais - cabras, ovelhas, bois, porcos e ca- valos, cuja carne, leite
e seus derivados aparecem como base da alimentação e principal
fonte de riqueza e as peles como meio de intercâmbio a serem trocadas
por cerâmica, sal e utensílios de metal, além de
utilizados no vestuário e fabrico de armas. Já utilizavam
o arado, também cultivavam o trigo, a cevada, o centeio, a vinha
e o linho. Bebiam uma espécie de cerveja e pouco vinho. Actividades
como a tecelagem, a olaria e naturalmente a cesta ria estariam presentes
na vida quotidiana dessas populações e, nesta conformidade,
os cestos em fibras vegetais abundantes na zona faziam parte dos seus
utensílios para transportar e armazenar produtos e alimentos. É possível
que as populações do castro do "castelo dos moiros",
antes da chegada dos romanos, fizessem parte dos lancienses; povo referido
pelos romanos na ponte de Alcântara (Tejo) que habitava a norte
de Idanha-a-Velha .Ou talvez Taporos, povo presumivelmente instalado
na vertente oriental da Serra da Estrela. Ambas as hipóteses são
apenas suposições com algum fundamento. De qualquer maneira
estes povos e a nossa região sofreram a invasão e ocupação
romana durante cerca de seis séculos.
Documento de 1758 do padre António Rodrigues lei- tão,
em resposta a um inquérito do rei D. José, refere a existência
de "uma estrada a que chamam de Viriato" a poente de Gonçalo
com um comprimento! na altura! já só de apenas 300 a 400
passos e que se dizia atravessar toda a Serra da Estrela até Celorico. É sem
dúvida uma estrada romana, tal como os vestígios de uma
outra perto do chamado carvalho grande. Para além disso, é inegável
a descoberta nos meados do século passado, de uma "villae" romana
na margem sul da estrada para a cruz da pedra, na qual encontraram vestígios
de alicerces, bastantes restos de cerâmica, objectos em vidro e
uma construção a que chamaram de forno (desconhecemos onde
foram parar esses vestígios). De factol em toda a zona,
de sul a poente do castro, encontramos, ainda hoje vestígios
de cerâmica, designadamente as "tegulae" e "imbrices",
para além de outra mais fina e rica de uso quotidiano.
Existe uma outra passagem no documento acima referido que nos parece
ser vestígio de um provável acampamento militar romano.
Diz o padre Antônio Rodrigues Leitão que "há nesta
terra em grande campo (...) distância de meia légua umas
valas bastantemente fundas e em partes alguns montes de terra levantados
em altura de dois homens (.. .)"; adianta presumindo serem de exércitos.
No nosso entender I há três fortes razões
para esta suposição. Primeiro porque passava bem perto!
uma das grandes vias imperiais mandada construir por Augusto, que ligava
a capital da Lusitânia (Mérida) a Bracara (Braga), passando
por Cáceres, ponte de Alcântara, Egitânia, "Centum
Cellae", Catraia, Valhelhas, Famalicão (serra dos Bois),
Assedace, Galhardos, Mangualde e Viseu - facilitando a movimentação
das tropas; depois porque o vale da Gaia era rico em metais, explorados
por eles conforme sua indicação, tal como a utilização
dos cestos, e por último, não esqueçamos que o vale
do Zêzere na nossa zona é uma porta de entrada para o "Mons
Herminius", último reduto dos lusitanos que era necessário
conquistar e pacificar. Lamentavelmente estes vestígios jamais
se poderão com- provar, pois terão desaparecido para sempre,
por via da extracção de metais levada a cabo pelas chamadas "dragas",
que revolveram no século passado todo o vale da ri- beira da Gaia.

Duas importantes conclusões hão-de retirar-se destes apontamentos.
Primeiro Gonçalo teve origem no castro, cuja denominação
primeira foi de "outeiro" e a sua população indígena
foi obrigada pelos romanos a descer para o vale próximo a Sul/Sudoeste,
de terras mais férteis e mais próprias para a agricultura,
deslocando-se em segui- da para o local onde hoje se situa, ainda durante
a dominação romana. Este movimento e respectiva data não
es- tão ainda completamente esclarecidos e uma intervenção
arqueológica nestes locais não seria de todo despojada
de sentido.
No século XII, em 1188, o rei D. Sancho I atribuiu carta de foral
a Valhelhas, constituindo um concelho a partir das terras da coroa. Esta
comunidade era formada pela vila de Valhelhas e seu termo (arredores),
abrangendo os lugares de Famalicão, Gonçalo (outeiro na época)
e Sarzedo. O concelho gozava de alguma autonomia e organização
própria, pois possuía uma assembleia de homens bons formada
por proprietários e comerciantes mais ricos, que elegiam entre
si, anualmente, os seus magistrados que aplicavam a justiça e
cobravam impostos, administrando por- tanto essa comunidade.
A fundação de um concelho na nossa zona, constituí-
do pelas três povoações à volta de Valhelhas,
poder-nos-á levar a pensar que poderia ter existido anterior mesmo à nacionalidade,
alguma forma de coesão, de ligação "institucionalizada" entre
esses povos, quer fossem meramente consangüíneos, de defesa,
ou formação de grupos para incursões de pilhagens
a terras mais ricas. Talvez estes povos "Iusitani" tivessem criado uma
espécie de cintura de defesa a Valhelhas constituída pelos
castros desses três lugares (conforme opinião de Alípio
da Rocha na Monografia de Valhelhas). Tal não seria de todo improvável! É de
crer que os romanos tivessem mantido essa ligação (física
e institucional), visto não estar definitivamente colocada de
lado a hipótese do estabelecimento de um pequeno município
romano, uma certa "civitates" nesta zona, aproveitada de- pois
pelo segundo rei de Portugal aquando da atribuição do foral.
Estas quatro povoações estabeleceram fortes ligações
entre as suas populações, apresentando um percurso histórico
comum de milénios. Cinturas de defesa, várias famílias
patriarcais do mesmo sangue, povos da mesma
"gentilitas", formariam eventualmente uma "gens" o certo é que
atravessaram toda a romanização, formaram concelho que
percorreu toda a Idade Média e Moderna, extinguiram-no em meados
do século XIX para virem a integrar o lado Sudoeste do actual
concelho da Guarda. Viveram e sentiram, portanto, os mesmos problemas
ao longo de milhares de anos e desconhecem a razão do fraco aproveitamento
deste património comum.
logo após a atribuição de carta de foral a Valhelhas
e seu termo, D. Sancho I atribuiu a comendo (benefícios eclesiásticos
dados a clérigos e leigos, como recompenso de serviços
prestados) de Valhelhas (das igrejas do concelho, incluindo a do lugar
de Gonçalo) à ordem militar de S. Julião do Pereiro,
mais tarde de Alcântara. Embora exista alguma controvérsia à volta
desta comenda, visto aparecerem documentos da época que falam
da comenda de Valhelhas e seu termo pertencente à ordem dos Templários
e à de Avis, parece-nos tal como a Alípio da Rocha, que
o comenda pertenceu sempre à ordem de Alcântara até D.
João I (1384) e que após ter voltado à coroa por
traição da ordem militar que participou na batalha de Aljubarrota
ao lado do rei de Castelo, a doou logo de seguida a nobres, o segundo
dos quais, Álvaro Gil Cabral (alcaide da Guarda), participou nas
lutas contra Castelo. Supomos que esta polémica tenha origem,
quer num empréstimo que a ordem de Alcântara contraiu à dos
Templários e extinta esta à de Avis, e por penhor foi dada
a comendo de Valhelhas que, após pagamento lhe foi restituída,
quer a alguma confusão à volta dos nomes dos mestres dessas
ordens, proveniente de má interpretação das fontes
históricas.
O foral de Valhelhas e seu termo atribuído por D. Sancho I, foi
confirmado mais tarde em 1215 pelo filho, o rei D. Afonso 11. D. Manuel
na reforma dos forais, em 1514, torna a confirmá-lo mantendo inalterado
o seu termo - lugares de Famalicão, Gonçalo e Sarzedo.
A partir de D. João I a comendo muda de mãos com alguma
frequência entre a nobreza, mas quase exclusivamente entre a família
dos Cabrais e dos Castros, pelo menos até finais do século
XVI, quando é atribuída aos condes de Castelo Melhor, designada
mente em 1584 ao 10 conde, Rui Mendes de Vasconcelos, até inicio
do século XIX (1811), pois volta de novo aos bens da coroa. Estes
senhores, primeiro eclesiásticos e mais tarde nobres, que de alguma
forma estiveram ligados à nossa povoação e às
outras do concelho, pouco ou nada influenciaram a sua vida, a maior parte
deles limitava-se a recolher as rendas, sem contudo sequer as visitar.
De facto, tais benefícios não eram permanentes e não
raras as vezes o rei as retirava para as doar logo de seguida a outros.
Relativamente à cestaria, se ela foi como temos a certeza, bastante
aproveitada pelos romanos - Catão afirmava que em cada quinta
("villae") devia haver entre várias culturas e árvores,
os salgueiros, para se fabricarem cestos - até mesmo na extracção,
transporte e lavagem dos metais em todo o vale da Gaia - lembramos que
até há bem pouco tempo os metais apareciam à superfície
- é de admitir que durante toda a Idade Média a produção
de cestos, pelo menos para consumo próprio e como complemento
das actividades agrícolas, se materializasse. Os habitantes de
Gonçalo faziam-nos porque necessitavam deles e quando um se inutilizava
substituíam-no por outro novo, não para ser vendido ou
trocado, pois seriam escassos os cestos construídos com fins meramente
comerciais. É claro que existe alusão nos forais de Valhelhas
a mercados e açougues, mas sem qualquer informação
sobre os cestos, aqui, ou no pagamento de taxas e impostos. Efectivamente
não seria uma mercadoria! Nem teriam grande significa- do nas
actividades econômicas da época, pelo menos na nossa zona.
Naturalmente que se utilizavam no transporte e armazenamento de produtos,
fundamentalmente nas actividades agrícolas e domésticas.
Mas a sua produção não estaria ainda especializada
e portanto a maior parte das pessoas sabiam-nos fazer. Para além
disso, a moeda era rara, nos meios rurais e nos estratos sociais baixos.

Em meados do século XVIII, mas já provavelmente no século
anterior, a freguesia de Gonçalo possuía uma razoável
dimensão. Assim, em 1758, apresentava cerca de 260 fogos, enquanto
que o número de habitantes rondava os 597. Ultrapassou a sede
do seu concelho, que está nesta época em declínio
e qualquer das outras povoações do concelho. Tal nos afirma
o padre Antônio Rodrigues leitão em resposta ao inquérito
de D. José, "Costuma este lugar ter um juiz ordinário,
um vereador e um procurador que fazem a metade da Câmara da vila
de Valhelhas por a dita vila ser muito pequena e não há gente
bastante para servirem as ditas ocupações, e tem mais este
lugar um juiz espadano (...1". À época, a cidade da
Guarda, sede de concelho, de comarca e bispado possuía 743 fogos
e 2891 pessoas com mais de 7 anos.
No referido inquérito ao qual o pároco de Gonçalo,
António Rodrigues leitão, responde em 1758, por ordem do
rei D. José, não é dada qualquer informação
sobre a cesta ria e nesta conformidade, adiantamos como já o dissemos
anteriormente, que esta actividade artesanal não tem ainda qualquer
evidência. Atrevo-me mesmo a afirmar que ainda não a tem,
nem em termos económicos, é claro, mas também em
termos de quantidades produzidas. De contrário o padre leitão
teria forçosamente de a mencionar, e não o fez. Tanto mais
que a questão número 13 do ponto li, pergunta que se indique "...
tudo o mais que houver digno de memória, de que não faça
menção o presente interrogatório" e ainda na
questão 20 do ponto 111, que se refira "...qualquer outra
coisa notável que não vá neste interrogatório.".
Concluímos assim que a cesta ria continua a ser, com bastantes
probabilidades, de autoconsumo e, se as famílias necessitam deste
tipo de apetrecho, faziam- no e utilizavam-no nos campos ou em casa,
sem que a sua produção, ou até utilização,
seja de tal modo desigual, que o padre Rodrigues leitão fosse
compelido a referir tal facto. Ainda não existe mercado para este
produto, ou se o há, será ocasional e em troca directa
para satisfazer as necessidades mais imediatas de alguém que os
não sabe fazer. Até à data, não existe sequer
menção de feira no concelho; mercado e açougue,
sim, mas provavelmente local, na sede do concelho e de pequena dimensão.
Da mesma maneira nada diz quando fala da ribeira da Gaia e do rio Zêzere
relativamente a eventuais fibras vegetais (salgueiros) que se pudessem
cultivar ou simplesmente colher para o fabrico dos cestos. O que também
nos leva a reflectir se os cestos não poderiam ter sido feitos
(e não só nesta época), por exemplo, com a palha
de centeio, já que era a principal produção da freguesia
e nada o contaria como matéria-prima; aproveitamos para referir,
que, por existir alguma ligação a Gonçalo acerca
da introdução deste artesanato na ilha da Madeira, os reclusos
da cadeia do Funchal produziam cestos em palha de centeio, em finais
do século XIX. Com alguma probabilidade, na época dos castros
e seguintes, um dos materiais utilizados seria o junco, fibra vegetal
fácil de trabalhar e que existiria em grandes quantidades. Mas
quanto ao salgueiro e para já não falar do vime, nada ou
muito pouco sabemos ao certo. Pelo me- nos ainda não se cultivava,
mas quanto à sua utilização... Portanto este tipo
de cesta ria que sempre se terá feito em Gonçalo até finais
do século XVIII, é complementar à actividade agrícola,
tanto mais que mesmo nos anos 40 e 50 do século XX, os cestos,
afirmam-no muitas vezes os nossos cesteiros, nem sempre são fáceis
de vender, enquanto que os lucros da venda desta produção
nem sempre davam para o sustento da família, sendo necessário
muitas vezes, nas feiras, recorrer-se à troca directa com outros
produtos. De igual forma, o nosso prior, também não menciona
as duas casas senhoriais hoje existentes, pois ainda não te-
riam sido construídas, elas datam de finais do século XVIII,
princípios do XIX.
A economia da freguesia de Gonçalo, neste século, em termos
gerais e um pouco superficiais, baseava-se na agricultura, fundamentalmente
nos cereais, sobretudo o centeio, menos milho e ainda menos trigo; para
além disso, produzia-se muita castanha e colhiam-se muitos frutos
(não se sabendo quais). O feijão, a oliveira (azeite) e
a vinha (vinho) também se cultivam com alguma extensão.
Na encosta da serra, cultivava-se a castanha e o centeio, existia a criação
de gado, sobretudo de cabras e de ovelhas, enquanto que o coelho, a perdiz,
o javali e a corça (mais raros), eram animais selvagens que por
aí se caçariam.
A actividade artesanal da cestaria, tal como hoje a conhecemos - profissão
a tempo inteiro e independente de qualquer outra actividade económica
- inicia-se, sem grande margem de dúvida, em finais do século
XVIII, talvez com maiores probabilidades em princípios do século
XIX. Os assentos de nascimento das décadas de 60, 70 e 80 do século
XIX revelam que os pais das crianças baptizadas são na
maioria cesteiros, número que vai diminuindo à medida que
nos aproximamos do início do século. Embora esta investigação
esteja ainda a decorrer e os dados entretanto obtidos não sejam
ainda suficientes, podemos para já retirar algumas conclusões
válidas, entre as quais se nos afigura credível que para
existir tão grande número de cesteiros - que pensamos ser
a tempo inteiro, logo como profissão única - em meados
do século XIX, terão de ter aprendido com os pais, sendo
provável que também os avós tenham sido cesteiros,
o que nos leva ao início do século. Assim, para que uma
profissão ou actividade económica, por muito pouco sustentável
que seja em termos económicos, possa manter o trabalhador, para
já não falar da família, terá de existir,
pelo menos um pequeno mercado capaz de absorver a produção,
por muito pequena que seja. Esse mercado existiu, pelo menos a partir
de inícios do século XIX.

A reforçar esta tese, temos uma das hipóteses adianta-
das para a introdução da manufactura da cesta ria na ilha
da Madeira, nos princípios desse século. O senhor da comendo
de Valhelhas e do seu termo, logo também de Gonçalo, D.
Afonso de Vasconcelos, filho do conde António José de Vasconcelos
e Sousa Câmara Caminha Faro e Veiga, 9° conde da Calheta e
2° marquês de Castelo Melhor, visita a ilha e leva consigo
uma comitiva na qual se encontram cesteiros de Gonçalo que ensinam
essa actividade a alguns naturais. Portanto parece-nos estar confirmado
a existência de alguns cesteiros a trabalharem a tempo inteiro,
em Gonçalo, a partir de inícios do século XIX.
É também em meados do século XIX que, segundo uma
tradição não só de Gonçalo, mas também
corroborada pelos Madeirenses, um natural de Gonçalo, cesteiro,
de nome Joaquim Diogo, foi recluso na penitenciária do limoeiro
e teria ensinado a arte da cesta ria a um natural da Camacha que a teria
levado para a ilha. Efectivamente, existe uma família Diogo em
Gonçalo, ao longo do século XIX, mas ainda não está confirmado
a sua eventual ligação com o referido recluso, nem a sua
prisão no limoeiro.
Não esqueçamos que é no século XIX que nasce
uma nova ordem económica e que a segunda metade é sobre-
tudo a época do liberalismo económico e da revolução
industrial em Portugal. Após a eliminação de um
conjunto de bloqueios que se arrastam de finais da Idade Média,
caso da abolição de tributos e imposições
dos velhos forais, como os direitos banais e as portagens, ou como a
extinção da "Casa dos Vinte e Quatro". lembramos que
o primeiro código comercial português aparece em 1833. Por
tudo isso, os transportes desenvolvem-se, o campo fica mais perto dos
centros urbanos, o comércio aumenta, a vida quotidiana, quer dos
campos, quer das cidades altera-se. Enfim, toda a vida social e económica
modificou-se profundamente em Portugal. O artesanato da cestaria, em
Gonçalo, e quiçá noutros lugares, acompanhou esta
transformação.
Relativamente à última metade do século XVIII,
parece-nos que possam já existir cesteiros, mas não a tempo
inteiro, especializados nestes trabalhos. De facto é ainda demasiado
cedo encontrar cesteiros especializados nestes trabalhos, sem terem de
recorrer a outras actividades económicas. Pensamos que o seu número
comece agora a aumentar a partir de algo que ainda desconhecemos e que
tenha de alguma maneira originado a especialização de gonçalenses
nesta arte. Aqui reside, em nosso entender, a grande problemática
da cestaria de Gonçalo. Não importa tanto, quando começaram
os trabalhos, mais ou menos especializados, da cesta ria em Gonçalo.
Até porque nos parece que foi, como já o afirmamos, na
passagem do século XVIII para o XIX. Mais importante ainda é conhecer-
mos como e porque é que este tipo de cesta ria apareceu em Gonçalo.
Como é que se processou este movimento, te- ria sido de fora para
dentro, ou de dentro para fora? Produto da Revolução Industrial,
ou apenas um dos seus ele- mentos? Foi a partir de uma família,
ou de um grupo delas já mais ou menos habituadas na produção
de cestos? Por- quê em Gonçalo, e o que está por
detrás do seu apareci- mento especializado!? Estas são
interrogações que vamos tentando pesquisar, para construirmos
hipóteses de investigação.
Chegados ao século passado, a manufactura da cestaria não
pára de crescer, é um movimento ondulante, mas sempre em
crescente, o cesto produto artesanal, em oposição ao industrial
valoriza-se, os cesteiros crescem, engrossam as oficinas familiares,
o seu número aumenta, a produção incrementa-se e
desenvolve-se, os modelos alteram-se, reconfiguram-se, os mercados crescem
e alargam-se. O mercado nacional foi completamente atingido. O internacional,
sobretudo o europeu, abre-se. A cestaria gonçalense está em
franca expansão. Os anos 60 e 70 são o auge, os anos de
ouro dos cestos em Gonçalo. É nesta época que surge
a Vergal, depois a Vimarte, fruto da associação de vários
cesteiros que já tinham oficinas onde trabalhavam cerca de uma
dezena de cesteiros. Desperta de igual forma um ténue movimento
sindical que acaba por desaparecer. A tradicional oficina surge provavelmente
em meados da primeira metade do século XIX e começa por
ser um es- paço no rés-do-chão da casa, onde apenas
trabalha o cesteiro e que depois se vai alargando aos restantes membros
da família e assim progressivamente a outros cesteiros de fora
do agregado familiar, tenham ou não laços familiares. Este
movimento crescente acaba por desembocar nas "manufactureiras" da
Vergal e da Vimarte, onde chegam a laborar 200 e mais operários.
Em 1967, Gonçalo tem per- to de 2000 pessoas, sendo mais de 500
cesteiros, quer a trabalharem por conta própria, quer por conta
de outrem, em pequenas, médias ou grandes oficinas. Nesse ano
de 1967, segundo o testemunho de um Presidente da Junta que era cesteiro,
bem perto de 400.000$00, só em nome da estrangeira, entraria todos
os meses nos cofres de Gonçalo, pese embora a concorrência
que já se começava a verificar com a produção
da ilha da Madeira. Os anos 70, sobretudo os últimos anos da década,
iniciam um processo de desaceleração do desenvolvimento
das décadas anteriores, com o esgotamento deste sistema de produção
que se torna incapaz de concorrer com o estrangeiro (sobretudo o espanhol)
e a ilha da Madeira, recriar modelos de cestos, alargá-los a outras
funções e actividades, lidar com o aumento dos preços,
abrir novos mercados, modernizar a gestão e administração
das oficinas, reinventar espaços e instrumentos de trabalho, enfim
adaptar-se a uma nova transformação profunda da economia,
já não só nacional, mas sobretudo mundial.

|